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A inteligência relativa segundo Asimov
30/06/10
(Mais um e-mail que recebi)
Já que as pessoas tem uma grande necessidade de botar a prova o próprio conhecimento. Mas um alto QI não indica necessariamente a felicidade, tampouco resultará em sucesso na profissão ou na vida, às vezes pode ser bem o contrário.
Texto extraído da autobiografia do maior escritor de ficção científica de sempre, Isaac Asimov:
Quando estava no exército fiz um desses testes de aptidão intelectual que todos os soldados realizam. Minha pontuação foi de 160, isto é, 60 pontos acima do normal. Nunca antes alguém tinha obtido um resultado assim, e por esta razão durante duas horas fizeram um grande alvoroço festejando meu resultado. Mas isto não significou nenhuma melhora para minha situação militar. No dia seguinte lá estava eu descascando batatas na cozinha cumprindo normalmente minhas tarefas.
Toda minha vida registrei pontuações similares à descrita, de modo que tenho a sensação interna de que sou muito inteligente. No entanto estes índices só significam em realidade que sou muito bom em responder o tipo de perguntas acadêmicas que se consideram dignas e difíceis, e que foram realizadas pelas pessoas que ‘inventam’ os testes de inteligência -pessoas com inclinações intelectuais similares as minhas?
Uma vez conheci um mecânico de automóveis que de acordo a minha estimativa não poderia superar os 80 pontos nessas provas de inteligência. Sempre tive a certeza que era bem mais inteligente que ele. No entanto, quando algo funcionava mal, eu olhava com ansiedade enquanto explorava as entranhas de meu carro escutando suas declarações como se fossem oráculos divinos.
Pois bem, vamos supor que meu mecânico de automóveis tivesse feito as perguntas para um teste de inteligência. Ou quem sabe fossem formuladas por um carpinteiro, ou por um agricultor, ou, de fato, qualquer pessoa que não fosse um acadêmico. Seguramente não poderia respondê-las.
Se neste mundo eu não pudesse utilizar minha formação acadêmica, meu talento verbal, e tivesse que realizar tarefas complicadas com minhas mãos, seguramente faria da pior forma.
Minha inteligência, então, não é absoluta, senão que é uma função da sociedade em que vivemos e o fato de que uma pequena porção da sociedade conseguiu impor aos demais, quais são as ‘normas’ como um árbitro desses assuntos.
Retomando o tema de meu mecânico, ele tinha o costume de contar-me piadinhas a cada vez que me via. Uma vez levantou a cabeça debaixo do capô do carro para dizer:
- “Doc, um garoto surdo-mudo entrou em uma loja de ferragens para pedir pregos. Pôs dois dedos juntos sobre o balcão e depois fez um movimento de martelar com a outra mão. O empregado trouxe-lhe um martelo. Sacudiu a cabeça e assinalou os dois dedos que estava martelando. O empregado trouxe-lhe os pregos. Escolheu o tamanho que queria, e se foi. Bom, doutor, logo depois entrou um cego na loja. Queria tesouras. Como acha que lhe perguntou pediu por elas?”
Indulgentemente levantei a mão direita e fiz uns movimentos de tesouras com os dedos indicador e médio. Ato seguido meu mecânico gargalhou ruidosamente e disse:
- “Ele usou sua voz e pediu as tesouras”. Depois, com ar de suficiência, disse:
- “Durante todo o dia brinquei com meus clientes”.
- “Muitos acertaram?”, perguntei-lhe.
- “Muito poucos”, disse, “mas estava seguro de que você cairia na pegadinha.”
- “Por que essa suposição?, perguntei-lhe.
- “Porque você é tão educado, doc, que tinha certeza que não poderia ser muito inteligente”.
Até hoje tenho a incômoda sensação de que sua afirmação tinha algo de verdadeiro…